Eita, que hoje me deu uma vontade de fazer uma declaraçãozinha... podem dizer que é brega, piegas, melação ou o que for. Deu vontade, fiz e pronto.

Ele faz parte de mim de tal forma que sinto como se fossemos um só. Já não sei onde ele começa e eu acabo. É como se fossemos uma só vida, uma só alma, um só caminhar. Ele é tudo e muito mais, é aquele que eu sempre quis encontrar, aquele que se encaixa e me completa. Me faz inteira. Feliz. Melhor. 

Muito especial estar plantando mais duas lindas sementinhas, fruto de um amor tão intenso e verdadeiro.

E eu queria dizer obrigada.  

Foto: Brígida Rodrigues

"... quem traz no corpo essa marca possui a estranha mania de ter fé na vida..." (*)

Quer mania mais indispensável, deliciosa e vital? Acreditar na vida, no futuro, na alegria.

Eu estou aqui meio recolhidinha, acho que 'chocando' mesmo. E envolvida por essa fé em tudo o que está por vir, na força daquilo que a gente deseja e busca, na energia do universo conspirando a favor daquilo que a gente quer de verdade.

Às vezes o que a gente precisa mesmo é se entregar a esse movimento contínuo da vida... se deixar contemplar e acreditar que tudo tem um porquê, uma ordem natural, uma harmonia intrínseca, mesmo que muitas vezes a gente não a alcance.

É um ato de humildade. Reconhecer que a vida está em nossas mãos somente até um certo limite. Dali pra frente, os acontecimentos são regidos por uma força maior, com a qual a gente pode - e deve, na minha opinião - tentar sempre estar harmonizado, mas que nunca vai poder dominar.

A gente é pequenino diante do mundo. Mas quando a gente descobre o tamanho e a dimensão da nossa força, percebe que pode muito. Se quiser.

Dar tudo de si para chegar a algum lugar e reconhecer quando chega o momento de apenas ver onde é que a maré vai te levar não me parece um ato de covardia. Mas de força. E sabedoria.

Eu não sei tudo, mas acho que esse pouquinho de sabedoria eu estou conseguindo acumular...

(* trecho de "Maria, Maria", de Milton Nascimento)

Tem dias que a gente não consegue mesmo colocar as idéias pra fora. A gente está cheia de coisas na cabeça, pensamentos vão e vêm, fazem uma dança das mais lúdicas pelos nossos cantinhos, mas está tudo dentro. Parece que não é mesmo pra gente dividir com o mundo. Uma autorização pra ser egoísta e curtir sozinho a força daquilo que a gente sente e pensa.

É que eu acho que estou meio assim. Meio pra dentro, meio no vácuo de mim, meio sem palavra. Pra fora. Porque pra dentro eu estou cheia.

Mas acho que é só por hoje. Provavelmente amanhã eu vou estar tagarela de novo.

Pra fora e pra dentro.

Tem horas que essa vontade vem intensa. De viver a vida de outro modo. Pé no chão, ar puro, horizonte nítido e limpo. Uma casinha no meio do mato, flores na janela e o peito cheio de vida. Rede na varanda, sol no rosto. E só ser. Um dia depois do outro.

Ver minhas filhas crescendo livres. Porque a liberdade é o meu desejo mais intenso pra elas. Que da liberdade vem todo o resto. Força, confiança, felicidade. E a intensidade da vida.

Sair para dançar nua na chuva, pisar o mato molhado, sentir o cheiro da terra. Da essência da vida. Dar as mãos aos que amo e caminhar. Sem destino nem porquê. Apenas caminhar. E entregar o futuro ao futuro.

Deixar para trás a vida em tons cinzentos, o stress, a pressa. A falta de horizonte, de perspectiva. De vida. O cotidiano enquadrado, padronizado, massificado. O olhar apreensivo para os lados. A sensação de alerta constante. E a indiferença. Principalmente essa. Que embota a alma e nos faz menos humanos.

A verdade é que eu não conseguiria. Sei disso. Não conheço todos os meus limites, mas esses sim. Se olho para dentro tenho que admitir que é também no caos que me encontro. Que também preciso do barulho, das luzes piscando, do choque da artificialidade. O fato é que acho que o natural nem sempre me basta. Talvez devesse. Mas não.

O que me resta é encontrar o meio-termo. O meu meio-termo. O caminho que me permita amar a vida e sentir seu gosto na pele e na alma, mas também dar voz ao meu próprio caos. À parte de mim que ferve, sedenta por convívio, por descoberta, por barulho. Porque isso também sou eu. 

Eu espero conseguir construir esse meu cantinho de placidez e tranquilidade. Nem que seja aqui mesmo, no meio do caos, do mar de cimento, no meio da selva da modernidade. Se eu conseguir preservar em mim e nos que estão ao meu lado essa possibilidade de vida, de respiro, de liberdade, já vai ser felicidade de transbordar a alma.

Eu acho que consigo. Tenho a força que vem de mim e de tanta gente maravilhosa e amada que está comigo. Tenho a sorte de ter carinho que me envolve e me faz fugir pro meio do nada sem sair do lugar. Que me faz ver o horizonte ainda que meus olhos não o enxerguem.

É que, no fim, não é o meio que faz a gente. Se a gente quiser, a gente é que faz o meio.

Isso se a gente quiser.

Upload: Só complementando o que escrevi ontem, tem também sonho que passa. Nem todo sonho é pra ser realizado. Tem aqueles que a gente sonha e deixa. As coisas mudam e o sonho passa. Ou se transforma. E aí tem que ter desapego e deixar ir, por mais que doa ver um sonho morrer. Mas é assim que acontece. Porque o sonho é matéria viva, pronta pra ser esculpida. E a magia disso tudo está em abrir os braços e seguir em frente, de alma lavada e sonho novo em punho...

"Eu tenho uma espécie de dever, de dever de sonhar
de sonhar sempre,
pois sendo mais do que
um espectador de mim mesmo,
Eu tenho que ter o melhor espetáculo que posso.
E assim me construo a ouro e sedas,
em salas supostas, invento palco, cenário para viver o meu sonho entre luzes brandas
e músicas invisíveis."
(Fernando Pessoa)

Eu sinto mesmo como se tivesse a obrigação de sonhar. Um compromisso comigo mesma. De não me deixar engolir pela crueza da realidade, de não perder a capacidade de ver as cores e o brilho ocultos em cada detalhe delicado do mundo, de construir meus próprios castelos de sonhos e possibilidades e trazê-los para a minha vida, para o ar que eu respiro, para todos os que eu amo.

Eu acho que, pra quem não sonha, a vida se torna intragável. Intratável mesmo. Porque o sonho tem essa capacidade de nos transportar, de transformar tudo e tornar aquele cenário insuportavelmente cinzento em um arco-íris de cores lindas e redentoras.

Não estou falando de fuga da realidade. Isso é importante que se entenda. A realidade existe, e a gente tem que aprender a lidar com ela. Até porque, queiramos ou não, ela continua sendo realidade. E quando menos a gente espera está tropeçando nela.

O que eu quero dizer é que é importante que a gente tenha a capacidade de enxergar adiante. De compreender outros significados além do visível. De não aceitar o que é simplesmente porque é, e acreditar que pode ser diferente se a gente quiser.

Querer já é um primeiro passo. Pode não ser tudo, mas é muito.

Eu sonho com tudo o que quero. E quero tudo o que sonho. E não desisto, porque não sou assim. O meu sonho é muito mais que um sonho. É a minha futura realidade me esperando no dobrar da próxima esquina. Aguardando para invadir a minha vida e me tirar do rumo antigo. E quando esse sonho chega, eu já estou sonhando adiante.

Porque sonhar é muito mais que um passatempo. É uma crença, um estilo de vida.

Parodiando Raul, eu diria que sonho que só se sonha é só sonho que só se sonha. Mas sonho que se busca é realidade.

Eu estava aqui pensando... a idéia de beleza está mesmo muito destorcida hoje em dia. Distante do que eu entendo por beleza, pelo menos.

Um exemplo disso é o receio que muitas mulheres têm de engravidar por medo de engordar, ter estrias, peito caído e sei lá mais o que.

Eu nunca me senti tão linda quanto agora, com um barrigão de 37 semanas de gravidez. Plena, exuberante, sensual. É assim que eu me sinto. Porque cada pedacinho do meu corpo, cada curva, cada marca, cada detalhe tem um significado. Conta uma estória. Faz parte de um processo de criação, de crescimento e de descoberta.

Não vou dizer que só as mulheres grávidas é que são bonitas. Mas me arrisco, sim, a dizer que só aquelas que se permitem viver cada marca, cada cicatriz, cada mudança sem medo. Que permitem que seu corpo conte uma estória, expresse cada paixão, cada dor, cada queda. Cada descoberta. Que não temem a evolução e o crescimento, nem tampouco suas marcas. Porque elas vêm com o pacote. Não tem jeito de evitar. E quando a gente aprende toda a beleza e plenitude que elas encerram, nem evitar a a gente quer mais.

Tentar conter o tempo, pra mim, é uma das maiores bobagens já pensadas pela humanidade. O tempo passa mesmo, e não é nosso. E essa é a grande maravilha da vida. Que a gente nasça, cresça, viva e aprenda. E acorde cada dia diferente. Porque é outro dia, e porque o ontem já não é mais. E o que a gente era ontem também já não é mais.

Eu não sei qual é a graça de se olhar no espelho e se ver sempre igual. Sempre com os mesmos traços, com a mesma expressão, com a mesma beleza. Mais fascinante é descobrir uma nova beleza a cada dia. Que vem das marcas que o tempo e as experiências nos impôem.

Eu descubro. A cada dia, um novo passo, um novo detalhe, um novo traço. E me apaixono por cada detalhe, porque é a minha vida impressa em mim. A minha caminhada. E esse barrigão é o capítulo mais especial, mais intenso e apaixonante. Eu me olho no espelho e me sinto bonita, poderosa, inteira. Mulher.

Pra mim, não há nada mais lindo do que um corpo que conta estórias.

"... tudo o que tive e ainda tenho, tão triste ir buscar lá fora o que devia estar aqui dentro... " (*)

Reli ontem essa frase, anotada em um pé de página de uma agenda de uns anos atrás. Circulada, grifada, destacada. Essa era a intensidade da minha identificação com a frase na época. Me atingia com tal violência que a compreensão aguda do seu significado despertava em mim uma disposição de animal ferido.

E foi muito bom reler e descobrir a sensação de não me identificar mais. Continuo achando a frase de uma beleza  infinitamente sincera, verdadeira e quase cruel, de tão real. Mas já não me define. Não me expressa.

Nem sei dizer quando foi que passei a compreender que a solução está dentro, não fora. O que sei é que é muito bom sentir essa saciedade, essa satisfação com o que se é e com o que se tem. Um ter espiritual, não material. A sensação de que de repente tudo ficou possível, e o sentir-se feliz ficou mais próximo. Ali, ao alcance da mão. Porque dentro de mim, e não no mundo.

É claro que eu não sou perfeita, nem minha vida é completa. Nem é isso o que desejo. A perfeição e a completude levam à estagnação, e estagnar vai contra tudo o que eu acredito e busco. Mas consegui atingir um ponto, e isso é muito bom. Porque é pra isso que a gente caminha. Pra chegar a algum lugar.

Sentir, assim de repente, que a gente tem o que antes não tinha, traz uma calma, uma serenidade, uma placidez.

E a compreensão de que abraçar o mundo é pretensão demais e que, no fim das contas, o que vale mesmo a pena é aquilo que cabe aqui dentro. E nada mais, porque não precisa.

(*frase de Lygia Fagundes Telles, em "Ciranda de Pedra", creio...)

 

"Você é mais bonita que uma bola prateada
de papel de cigarro
Você é mais bonita que uma poça dágua
límpida
num lugar escondido
Você é mais bonita que uma zebra
que um filhote de onça
que um Boeing 707 em pleno ar
Você é mais bonita que um jardim florido
em frente ao mar em Ipanema
Você é mais bonita que uma refinaria da Petrobrás
de noite
mais bonita que Ursula Andress
que o Palácio da Alvorada
mais bonita que a alvorada
que o mar azul-safira
da República Dominicana 

Olha,
você é tão bonita quanto o Rio de Janeiro
em maio
e quase tão bonita quanto a Revolução Cubana"
(*)

Acho esse poema de uma beleza tão singela... ternura de marear os olhos e encher o coração. Declaração feita como quem olha uma flor e compreende sua beleza, sem tentar penetrá-la além do necessário. De quem contempla, ama, aceita. O amor maior e mais doce que alguém pode dedicar a outra pessoa.

Isso é o que eu sinto quando leio. Uma leveza, uma doçura, um carinho que me afagam a pele e me fazem sonhar. E isso é o que me deu vontade de dividir com vocês hoje. Porque acho que o mundo precisa demais disso. De carinho. De toque suave. De ternura. De sensibilidade à flor da pele.

Basta fechar os olhos e se deixar levar pelo sopro. Que a brisa é sábia e, muitas vezes, pode mais que o vento.

(* "Cantada", de Ferreira Gullar)

Recebi essa imagem hoje por e-mail. Ela não poderia ter chegado em momento mais adequado...

Nesse final de semana aconteceram algumas coisas que me fizeram tomar contato exatamente com a sensação que essa música descreve: essa súbita consciência - a gente já sabe, mas às vezes esquece - do quanto a vida é um processo dinâmico, que envolve milhares de coisas cuja alteração ou desfecho estão fora do nosso alcance. Por mais que a gente queira e faça.

E no primeiro momento não foi legal. Acho que eu estava curtindo sentir que podia mudar tudo, que bastava querer e ir atrás que tudo aconteceria do jeitinho que eu achava que tinha que ser. Dava uma sensação de força, de onipotência. Que se esvaiu quando eu percebi que não era bem assim. Porque a vida é vida, já diz o nome. É força contínua, é mudança, é ar a ser respirado e energia a ser captada. Coisas que a gente não controla, não percebe. Só tem que viver.

O bom é que foi rapidinho. Logo eu passei a olhar as coisas por outro lado. Imagina se a gente pudesse controlar e prever tudo na vida... que tédio! Eu, que tanto amor tenho pelo imprevisível, pelo inesperado, pelo surpreendente, me peguei de repente querendo que tudo fosse enquadradinho, certinho, planejadinho. Ao contrário de tudo o que eu sou e desejo pra minha vida. É, quanto mais eu penso mais percebo o quanto o ser humano é um bicho estranho e cheio de poréns...

Enfim, já estou de volta. Pronta pra me entregar pro que tiver que ser. Porque o que tiver que ser, será, eu querendo ou não. A gente faz o que pode e abre os braços para o resto. Vive e deixa viver. Ou pelo menos tenta.

Eu estou aqui tentando. E contando com toda a torcida que vier.

PS. não estou muito a fim de contar aqui qual foi o fato que desencadeou essa reflexão toda... quem quiser me mande um e-mail e a gente bate um papo mais privativo...

 O maior mico da minha vida...

Aconteceu já tem um tempo. Uns anos.

Eu precisava ir ao oculista. Consulta de rotina, confirmar o grau para fazer óculos novos. Nada de mais. Como tinha o convênio da empresa da minha mãe, pedi para ela ver entre os colegas dela se alguém tinha alguma indicação.

Dias depois, ela me trouxe um nome e um telefone. Ótimo. Liguei, marquei consulta. Nada de mais.

No dia da consulta, lá vou eu, feliz e contente. Só uma consulta de rotina com um oculista, nada para preocupação. Ou não...

Chegando ao consultório, já começaram os fatos estranhos. Não parecia uma sala de espera normal. As pessoas estavam tristes, cabisbaixas, deprimidas. Extremamente preocupadas. Algumas olhavam para mim com um ar compungido, e eu não entendia porque. "Mas é só uma consulta com o oculista... tanto drama por causa de um problema de visão? Eu, hein...".

Não demorou muito para chegar a minha vez. O médico abriu a porta do consultório e chamou meu nome. Quando me levantei, ele demonstrou surpresa e o mesmo ar de pena do pessoal da sala de espera: "Você veio sozinha??". Balancei a cabeça afirmativamente. "Ora bolas, para que eu ia precisar de companhia em uma visita ao oculista?".

Ele se sentou, suspirou e atirou a pergunta, como se temesse a resposta: "Então, por que você está aqui?". Eu, sem mais rodeios, tirei a última receita com o grau dos óculos antigos da bolsa e coloquei-a sobre a mesa, com a explicação simples e direta: "Bom, é que já faz tempo que eu não confiro o grau, e preciso fazer óculos novos..."

Ele pegou a receita com um ar intrigado. Subitamente, pareceu compreender toda a situação. Olhou para mim como que contendo o riso, provavelmente em uma tentativa – inútil, mas bem-intencionada – de não me deixar constrangida. "Eu acho que você se enganou... eu não sou oculista, sou oncologista".

A palavra ficou ressoando nos meus ouvidos. "Oncologista, oncologista... caramba, o que é que eu estou fazendo aqui??????"

Para quem estiver em dúvida, oncologista é o médico especialista em câncer. E o que é pior, o cara era oncologista cirúrgico. Ou seja, o tipo do médico que só se procura quando tudo o mais já está perdido...

De repente, tudo começou a fazer sentido. O ar pesado da sala de espera, o olhar compungido da secretária, a pena do médico ao me ver entrar sozinha para a consulta. Olhei ao meu redor. Como eu não havia percebido antes? Passei os olhos pelos livros na estante: ‘Câncer na Boca’, ‘Câncer no Estômago’, ‘Câncer na Laringe"... a maca, para que diabos haveria uma maca em um consultório de um oculista??? E aquela máquina esdrúxula para exames oftalmológicos, como eu não tinha percebido que não havia uma ali??

Eu queria sumir. Queria que o chão se abrisse e me engolisse. Comecei a sentir um calor tremendo, imaginei que meu rosto devia estar um pimentão. Acho que nunca me senti tão idiota em toda a minha vida...

"Eu sei por que você se confundiu... é que a lista de oncologistas vem logo em seguida à de oculistas no livrinho do convênio...". Ele tentava justificar o injustificável.

"Vou te recomendar um oculista muito bom, um amigo, o consultório dele é aqui pertinho...". Eu já nem ouvia, só queria me levantar e sumir dali.

Ele me entregou o papel com o endereço do tal oculista. Eu peguei, agradeci, virei as costas. Tentei fazer a cara mais tranquila possível, algo assim como "enganos acontecem... que coisa mais curiosa...", mas é claro que a minha expressão denunciava o quanto eu estava me sentido a criatura mais tapada do universo.

Saí direto, sem olhar para os lados na sala de espera. Eles não sabiam, mas a minha cara de desconcerto certamente denunciaria tamanha estupidez.

Saindo do consultório, inventei de olhar para trás. Maldita hora. Só pra piorar as coisas. Uma placa enorme na porta dizia em letras garrafais: "Dr. Fulano de Tal, oncologista cirúrgico". Por que diabos eu não vi essa placa na entrada? Distraída tudo bem, mas assim já era demais...

Saindo do prédio, sentei na escadaria e fiquei lá, uma meia hora, rindo sozinha. As pessoas passavam e não entendiam nada. Mas eu entendia.

Eu tinha uma mera miopia. E isso era muito, muito bom...

Se eu quiser falar com deus...

Religião é um assunto vasto. Daqueles que, inclusive, dizem que não se discute, como futebol e política. Bom, eu não entendo uma vírgula de futebol (o Re que o diga...) e a política está de tal forma ultimamente que nem está dando mesmo vontade de discutir. Então... pra quem gosta de uma discussão polêmica, é bom se armar de disposição e paciência, porque eu não economizei e o texto ficou enorme. Mas vamos lá...

Eu não tenho uma religião. Pelo menos não uma religião formal. Mas me considero uma pessoa de fé.

Na verdade, eu poderia dizer que tenho, sim, uma religião. Uma religião minha, que me diz respeito profundamente, singular e própria. Porque religião, para mim, não significa um conjunto de normas e dogmas, nem necessita de uma instituição centralizadora do poder e do conhecimento, nem a adoção de rituais pré-definidos de prece ou agradecimento.

Minha compreensão de religião está mais ligada à raiz etimológica da palavra, que vem do latim religare, que significa ‘religar-se’. Religiosidade, para mim, tem a ver com a redescoberta da energia essencial que rege o mundo, e da qual todos viemos. Tem a ver com redescobrir-se, reconectar-se com uma essência perdida. Ou pelo menos, muitas vezes, esquecida.

É por isso que eu me considero, sim, uma pessoa religiosa. Tenho meus rituais, mas eles são meus e só, fruto de uma descoberta própria e solitária. Não vou a nenhuma igreja, não sigo normas de conduta ditadas por nenhuma religião, não me enquadro em nenhuma religião que conheça. Simpatizo com algumas, respeito outras e, confesso, tenho certa antipatia por essa ou aquela. Sobretudo não há nenhuma cuja fé e crença eu abrace incondicionalmente, talvez porque é parte da minha própria natureza inquieta o amor ao questionamento acima de tudo. 

Mas o fato é que essa busca é essencial na minha vida. Não de uma religião na qual possa me enquadrar, mas de um elo indissolúvel e total com uma energia superior que me nutre e cuja compreensão absoluta nem sei se é possível. Mas tampouco é isso que importa. O cerne da questão não é um ponto de chegada, uma recompensa, um ‘paraíso’ a ser alcançado, mas a descoberta da infinita beleza da caminhada. Em direção não a um Deus externo, mas ao que em mim há de divino, sublime, perfeito. Em direção à minha essência mais profunda, ao meu ser interior mais verdadeiro e significativo.

Essa é a minha fé. A fé no universo, na energia da natureza, na força dos sentimentos verdadeiros. A fé no ser humano como infinito de possibilidades.

Minha religião sou eu mesma, é o mundo, é tudo o que me rodeia. É a esse todo que devoto minhas preces, meus agradecimentos e minha adoração. É com esse todo que busco, dia após dia, sentir-me conectada, harmonizada.

Mas não acredito em verdades absolutas ou caminhos únicos. Nem poderia. Meu amor pela liberdade é intenso demais para permitir que eu acreditasse nisso. Acredito, isso sim, que cada um encontra seu próprio caminho, e não há certo ou errado nessa busca, porque não há resultados pré-determinados. Ninguém sabe o que vai encontrar, até que encontra.

O errado para mim é a falta de respeito. E é aí que, muitas vezes, me incomodo com a postura adotada pelas religiões (não todas, mas creio que a maioria) e pelas pessoas ditas ‘religiosas’. Porque o que vejo é uma arrogância que não lhes permite compreender a maravilha da multiplicidade. De crenças, de visões de mundo, de formas de compreender e buscar deus, seja lá qual for.

O ideal – sim, o ideal, e eu o imagino sem medo, embora tampouco consiga conservar a esperança incondicional – seria viver em um mundo onde a religião suprema fosse a do respeito. Ao que se é, ao que se quer, ao que se crê. Que cada um se sentisse livre para plantar sua própria semente, da forma que achasse a mais certa, e que todos pudessem, juntos, vê-la florescer. Porque, afinal, esse deveria ser o objetivo maior de toda e qualquer religião: o florescer. De um novo mundo, de uma nova realidade, de um novo ser humano.

Deveria, mas nem sempre é.

 

Outro dia (já faz um tempinho, na verdade) eu ouvi uma estória daquelas de rolar de rir...

Conversando com uma moça que puxou papo perguntando da gravidez, chegamos à questão do nome. Ela me perguntou se eu já tinha escolhido os nomes das pequenas e eu contei: Ana Luz e Estrela.

Ela achou lindo. Disse que adorava nomes diferentes, que fugiam ao lugar-comum. E que, quando ela estava grávida (ela tinha um filho, isso eu já sabia, chamado Leonardo), queria dar ao pequeno o nome de Cauê. Mas que o marido não gostava, queria José, porque achava que era melhor o menino ter um nome mais comum, senão iam fazer gozação com o nome na escola e tudo mais...

Até aí, tudo bem. A graça vem com o desfecho da estória, a decisão que eles tomaram: "Já que a gente não encontrava um nome que os dois gostassem, colocamos Leonardo mesmo, que nenhum dois dois gostava e pronto!!"

Dá pra acreditar?????

É cada uma que a gente vê por aí...

Ah, só uma observação pra quem tem essa opinião sobre nomes "incomuns": gozação com os nomes vão fazer de qualquer jeito, viu? Criança sempre acha um caminho... eu, que tinha um nome relativamente comum, tinha que aguentar as brincadeiras com o sobrenome, Penna. Então, uma sugestãozinha: seja João, Maria, Sidarta ou Emenengarda, o que conta é a gente dar aos pequenos os nomes que a gente escolheu e sonhou com todo o carinho. O resto é resto e sempre se resolve...

 




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